domingo, 15 de outubro de 2017

Musicalidade: emoção esquadrinhada em cifras

O blog hoje recebe o texto de uma convidada muito especial!

"Se hoje você fosse cantar uma música, qual seria? 
E para quem você cantaria? 
De quem se lembraria? 
Música tem cheiro, cor, tato, pele, sorriso, momento e nos transporta a lugares. 
Desperta emoções.
Música aguça e bagunça a memória do corpo.
Todas as melhores histórias de amor tem uma trilha sonora. 
Cada casal tem uma música especial.

Música reflete o estado do espírito em que cada um está. 
E sobre você, exclusivamente você, a sua sonoridade diz o que?
Momento feliz? Ótimo! De acordo com o neurocientista Jacob Jolij, da Universidade de Groningen (Holanda), a música que suscita as melhores sensações no cérebro de quem a escuta é ‘Don’t Stop Me Now’ (1978), da banda britânica Queen.
Viva La Vida, do Coldplay, no último volume representa muito bem a alegria (e até em fone de ouvido vale). 

Sentindo-se down? Separe um bom vinho e extravase a emoção com a playlist: Home (Michael Bublé), Careless Whisper, Sacrifice, Everybody Lost Somebody, Stay, Angie, Epitáfio, Sutilmente, Na Sua Estante, Fix You, Hoje (Jota Quest), Let Her Go.

O fato é que nenhuma música é capaz de amenizar uma saudade, seja de algo vivenciado, seja saudade de algo que se quis viver, mas não se teve a oportunidade ou não se permitiu viver (autossabotagem em modo on). 
Talvez seja essa a pior saudade: saudade do que nunca experienciou. 

O maior poeta, conhecido como Rei do Baião cantarolava bem

“Se a gente lembra só por lembrar
Do amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu

Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce, aí é ruim
Eu tiro isso por mim
Que vivo doido a sofrer”

Da sua saudade, qual o som você extrai? 

Quer uma sugestão? 
Se for uma saudade pretérita, rememore-se, delicie-se, deixe o peito se encher daquelas sensações que somente você conhece! 
Aproveite e (re)cante a canção que lhe inspirou.

Se for uma saudade de um (quase) futuro que não existiu, de um sorriso, olhar, aroma ou sabor que você quer de volta, do pouso de uma joaninha no ombro ou de borboletas no estômago, componha uma nova trilha sonora e contagie o mundo com as suas notas musicais! 

Acredite! Se jogue! Seja bobo, viva, arrisque, poesie-se, cante e encante! 

Existem duas coisas que o Alzheimer não afeta: a música e o amor.
Se unir os dois, a sonoridade será inesquecível! 
Tente! 

A minha música de hoje? 
“You're my downfall, you're my muse
My worst distraction, my rhythm and blues
I can't stop singing, it's ringing, in my head for you”
John Legend - All of me 

Ou o som de sua voz!"

Texto: Uma menina
Imagem: notas musicais tatuadas


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A festa e a bagunça que todo mundo vê e a música que ninguém ouve

Começar um texto as vezes é tão difícil quanto começar um relacionamento. A ideia que temos é de que, se começamos bem, o restante fluirá com mais facilidade. Inícios precisam ser criativos para que sejam estimulantes, tanto para quem lê, quanto para quem escreve. Muitas vezes, é o primeiro parágrafo que segura o segundo, e abre portas para o terceiro. Escrever é se relacionar com o papel, ou com o teclado. É deixar marcas que duram, que perpassam quem somos e atingem quem entra em contato, de uma maneira diferente para cada um.

Eu sempre gostei de escrever porque eu sempre gostei de ler. Meu trabalho gira em torno disso, minha agenda, meus diários... se não escrevo, não tenho por onde transbordar. As ideias ficam girando na minha cabeça, desordenadas, incomodando. E então eu me sento, coloco o celular no silencioso, um copo de água do lado, e transbordo. As palavras vão saindo sem qualquer planejamento, o que eu planejei escrever no inicio não é o que estou escrevendo agora. E o que virá depois eu ainda não sei.

Parece que também a vida é assim, inteiramente. Temos ideias que se executam das formas menos improváveis, ou impensadas. Planejamos para melhor improvisar. Passamos o caminho inteiro dentro do ônibus calculando a parada para descer e, perto do final, decidimos descer uma parada antes porque lembramos que precisávamos imprimir um documento. Há coisas que surgem, bem na nossa frente, que tornam difícil contornar para seguir o que era planejado, porque o que havia antes já não parece mais uma boa ideia sem o que há agora.

Ah, imprevisibilidade! Acho que você é a esposa do Tempo. Fazemos junção do tempo com experiência de vida, com o dinheiro, com a paciência. Dizemos que só o Tempo dirá. Mas a ultima palavra vem da imprevisibilidade. O tempo tenta nos preparar para ela, que vem jogando todos os papeis para o alto, como o vento.

A imprevisibilidade faz bagunça feia, dita novas regras que, somente com o tempo, vamos nos acostumar. Ela quebra paredes, destrói muros, gasta dinheiro, aumenta (ou diminui) o apetite, mexe com a ansiedade, acelera o coração. E parece que é, no meio dessa inconstância que assusta, que afrouxa, onde encontramos o amor.

E este danado faz a festa. Não tem planejamento no mundo que resista a imprevisibilidade de um novo amor. Melhor entregar os pontos, ser mané da boa vontade. Porque não dá pra forçar todo mundo a entrar nessa dança em que só a gente escuta a música. Ninguém suporta o pieguismo do apaixonado. A única saída é ser discreto e cantar no chuveiro.

Os amigos disponibilizam dez minutos do seu precioso tempo para ouvir as coisas mais clichês, até porque não da tempo organizar um discurso bonitinho pra eles se interessarem e entregarem mais dez minutos. Corta! A família, coitada, é preparada para proteger o amoroso que, certamente, é visto como alguém andando em direção ao precipício, num caminho sem volta. Pouco podem ouvir, porque o amoroso vai se distanciando, não pode falar tudo para não dar ideia errada.

Pouca gente tem paciência para ouvir J Quest, banda de tão feliz e amorosa que é, vira um saco. Enquanto isso, Sertanejo de dor de cotovelo cresce aos montes. É a parte em que o amigo se junta e a família acode, agora bem preparada. Todo mundo sabe o que acontece. Por isso, ninguém aguenta os apaixonados, são imprevisíveis e bagunceiros. Apaixonado é adolescente antes do primeiro emprego, e só o tempo pode levá-lo a aposentadoria. Apaixonado é carta de amor, sem referência ou formatação. É poema solto que, com o tempo, conhece outro e se junta para formar um livro.


Tem amor que é escrito como esse texto, sem critério e sem planejamento, mas que consegue aliviar seu escritor, perpassando tempo e aproveitando a bagunça da imprevisibilidade.


domingo, 14 de maio de 2017

Tem alguma coisa errada


Quando eu não entendia muito bem os meus sentimentos, e não compreendia o meu movimento diante do/no mundo, eu sentia que tinha alguma coisa errada. Não é possível que esse jeito que eu estava vivendo era coerente com o que eu deveria viver para que eu pudesse me sentir bem.
Anos de terapia, algumas leituras sobre filosofia, conversas e desabafos com vários amigos, e "boom!" Percebi o que estava errado.

Eu precisava mudar a rota. E, caramba, como é difícil mudar a rota! Eu percebia que não dava mais pra seguir do jeito que estava, mas não havia descoberto ainda como é que eu tinha que andar agora, só sabia que tinha que ser diferente. Terreno fértil para inseguranças, diante do desconhecido.
É como quando você está escrevendo um capítulo de um trabalho e se dá conta de que não está usando as referências mais apropriadas. Você sabe quais são as ideias que quer desenvolver, mas por quem e por onde começar? Só ler sem escrever ou fazer uma série de novas observações? Qual é o melhor método?
Perde-se o que havia antes e não se tem ainda algo a que se sustentar. Ideias são só ideais, muitas vezes. 

De início, vejo o quanto recaio em alguns vícios antigos. Exemplo: não vou mais procurar seguir um padrão específico estabelecido fora de mim de como ser e agir.
Estou segura e confiante. É isso! Vou confiar em mim, só tenho a mim nesse momento. 
De repente, uma nova situação surge e eu não estou ainda completamente amparada pelos meus novos ideais (confiança demora a ser estabelecida), e eu recorro ao antes, começo a pensar em como eu comumente agiria. 

Alguns minutos depois, ou talvez no dia seguinte, vem a tomada de consciência. Não, antes eu até poderia agir assim, hoje não posso mais, não quero. Alívio e uma pitada de vergonha, por ainda não estar completamente segura e não ter me ancorado nisso rapidamente. Mas eu me perdoo, leva tempo para a gente se acostumar com certas medidas e reformas restabelecidas.
Exercício constante. 
E, mesmo me sentindo bem agora, ainda vem o sentimento de "tem alguma coisa errada, será que eu deveria agir diferente?" 

É... parece que não dá pra fugir do receio. Ledo engano a sensação de que chegarei a ter certeza. Mas me conforta que, passados os minutinhos de desespero por duvidar de mim, vem a calmaria de que é aquilo mesmo o que eu quero. Coisa que antes era o oposto: passados os minutinhos de calmaria, eu retornava ao desespero constante.

É... é preciso ter muita coragem. Alguma coisa sempre vai estar errada mesmo, e eu aceito. Mas vão haver inúmeras outras que serão as mais verdadeiras e incríveis. E eu aceito.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Viajar (ou a gostosa e dificil arte de andar sozinha)

Rio de Janeiro, 14 de abril de 2017

Peguei emprestado o computador da moça suíça pra escrever esse texto. Está fazendo sol lá fora, algo que tem acontecido pouco esses dias em que eu estou aqui. É a terceira vez que eu viajo para muito longe sozinha. Não havia planejado, inicialmente pensei em vir para a casa de um amigo, mas as coisas foram tomando outros rumos e acabei vindo parar em um hostel, onde, tirando o pessoal que trabalha aqui, eu sou a única brasileira.

Hoje somam-se sete dias em que eu estou aqui, falando inglês e portunhol para poder conviver melhor. Sete dias pedindo comida pelo Ifood e dividindo com alguns. Houve um dia em que ensinei a americana a fazer um frango a la Malu. Ah, ensinei algumas palavras em português também, ela estava com dificuldade com o verbo "tirar". Os israelitas prepararam uma comida esquisita, o alemão (mais brasileiro do que eu) me fez comer um macarrão mega apimentado, passei horas bebendo água. Parece até que andou pela Bahia.

A sensação é de que eu nem estou no Brasil. Conheci mais culturas do que outros lugares. A americana relatou odiar os EUA, seus pais só foram morar lá para se refugiarem da guerra do Vietnã, ela se sente vietnamita e deseja um dia morar aqui, inclusive para cursar Psicologia. Os israelitas terminaram o exercito e logo sairam para viajar pelo mundo porque passaram anos confinados. Os iraquianos também. Houve um dia em que todos os judeus se juntaram aqui porque era um dia importante para eles e a cultura é de passar esse dia todos juntos. Uma paraguaia me ensinou a diferença entre mucho e muy. A recepcionista falou comigo em inglês várias vezes porque era confuso ficar trocando de idioma.

Quanto a viagem, não montei roteiro de turismo, fui conhecendo o que dava certo, na hora que dava certo. O Rio é uma cidade incrível, é verdade o que dizem sobre ser uma cidade maravilhosa. Mas uma mulher sozinha possui limitações para ir e vir. Todos alertam "não pode vacilar, não pode ir sozinha para tais e tais lugares". Isso me cansou um pouco. A tensão acaba, por vezes, vencendo a coragem. E houve também a diversão que fez com que eu me sentisse em casa e segura. Sem contar a experiencia super engraçada de ir à Lapa no sábado a noite, com uma porção de gringos, e falar de futebol com um argentino e um alemão, este jogando na cara o 7 a 1, aquele, falando que eles tem o melhor futebol. Ora ora, parece que temos dois atrevidos aqui!

Ademais, em alguns momentos, é forte o sentimento de solidão. Em outros, é maravilhosa a liberdade de não depender ou precisar de ninguém para estar onde eu quiser estar. Como diz a música de Tiago Iorc "só um tempo só pra descobrir se a liberdade era só solidão". Equilibrio difícil, confesso. Mas, quem disse que eu passei algum momento sozinha aqui?

O quarto (que também é compartilhado com mais 7 pessoas) só serviu para dormir e guardar minhas coisas, o restante do tempo era entre a área externa do hostel, a sala, a cozinha e o bar. Rodeada de gente que veio sozinha (e em grupo), conversando sobre todas as coisas, ou em silencio checando o celular. Parece que surge uma espécie de solidariedade  empatica e vai acontecendo um rodizio de conversas e grupos. 

Deu tempo turistar e deu tempo descansar. Optei por deixar de fora Cristo e Pão de Açúcar, nesse feriado deve estar terrível de lotado. Fui à museus, uma biblioteca maravilhosa, caminhei muito por pontos históricos, como boa amante da história que sou. Por falar nisso, pra quem sempre foi meio solitária e cresceu acompanhada dos livros, conhecer o Real Gabinete de Leitura Português onde Machado de Assis ia para ler, foi incrível. Agora, tenho algo em comum com Machado!

Amanhã eu me despeço daqui e retorno à rotina. É bom viajar, e é bom poder ter um lugar para voltar. Aliás, é o que todos aqui no hostel relatam ter: a sensação de querer ir para poder voltar. Diz do sentido que o porto representa, muito tempo em mar aberto desperta o desejo de chegar ao solo. E vice versa. Ah, e agora o tempo voltou a ficar nublado.

Enfim, mission accomplished!!



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

2016 foi...

um ano atípico. Eu não encontro um adjetivo que possa defini-lo. Talvez uma frase seja melhor, ou citação, aquela famosa da Roberta Miranda em seu Twitter "não sei o que dizer, apenas sentir".
Foi um grande ano para mim, e terrível para o sistema político e sócio-econômico do país. Foi um ano de importantes conquistas para mim, mas de muitas perdas e mortes para o cinema, a música, a TV e os direitos humanos.
Não me surpreende tanto porque eu passei a virada do ano de 2015 para 2016 em um velório, na minha casa. Via os fogos lá fora e o choro dentro. Depois passei por momentos em que os fogos eram só por dentro. Com o tempo a gente vai aprendendo a não expandir demais os sentimentos, ou deveríamos.
Foi o ano em que eu deixei de morar sozinha e voltei a dividir apartamento. Em que eu mudei de trabalho, de estudos, de círculo de amigos. Vi vários filmes, coisa que eu não fazia há muito, muito tempo. Tentei cozinhar mais, me exercitei mais, li mais, viajei mais. Chorei menos, falei menos, escrevi menos, planejei menos.
Descobri que podia fazer muita coisa, das quais grande parte eu duvidava. Entre elas, algumas assustadoras, e que, consequentemente, deixaram de ser.
Aproximei-me do que eu considerava repulsivo pra diminuir meus preconceitos. Afastei-me do que não dava pra manter por perto mesmo assim. Escolhi. Escolhi muito, escolhi por mim. Me declarei mais vezes e para menos pessoas. Só desejei feliz aniversário a quem eu via sentido fazê-lo. Exclui várias pessoas das redes sociais e da agenda do telefone, adicionei outras. Ri menos e mais verdadeiramente. Respondi com segurança e firmeza ao que era sem graça e não cabia.
Libertei fantasmas que mantinha presos por fetiche. Libertei pessoas. Libertei meu cabelo do alisamento, meu corpo da pressão de conseguir mais 10kg e fiquei contente, doando todas as roupas que não serviam a ele. Outras eu reformei, com a maquininha de costura que eu comprei.
Equilibrei-me para não jogar no buraco qualquer pessoa que pensasse diferente de mim, e as insuportáveis me permiti jogar no abismo do meu desinteresse.
2016 foi um ano diferente. Um ano de reconhecimento das limitações e de descobertas de inúmeras possibilidades a partir disso. Arrisco dizer que se não saio deste ano com saldo positivo, também não saio com dívidas. Tudo agora está em dia, encaminhado e limpo.
Eu, de fato, queria um adjetivo pra resumir 2016 mas não encontro. Talvez eu torne 2016 um adjetivo e use nas próximas ocasiões: "Isso foi tão 2016!"
É, foi melhor de uma maneira geral do que 2015, que superou 2014. Porque quando me lembro de 2014, sinto até um arrepio... Foi um ano tão 2013.




sábado, 17 de setembro de 2016

Coisas que aprendi e com quem

Comumente, temos a ideia que a vida ensina. Mas, para mim, durante este curso, foram as pessoas com quem tive contato as maiores possibilitadoras de aprendizado.

Aprendi que sensibilidade é algo que a gente pode não perder, pois mesmo depois de uma longa jornada de experiências, é possível chorar com a simples fala de um aluno. Obrigada, Symone.

Que o cuidado tem várias formas, e pode vir de maneira acolhedora ou "chute no joelho", mas que se a gente souber olhar, faz sentido. Obrigada, Elza.

Que não há necessidade de ser meiga para agradar, e com objetividade, pode-se cativar inúmeras pessoas. Obrigada, Ana Andrea.

Que falar pouco é uma virtude. Obrigada, Melina.

Que um olhar pode ser mais encorajador do que algumas palavras. Obrigada, Karina.

Que nem sempre é fácil ouvir e acompanhar um grupo que se movimenta de diversas formas, mas no fim dá certo. Obrigada, Cíntia.

Que os bastidores são essenciais, e nem sempre a gente lembra que é onde a mágica também acontece. Obrigada, Régina.

Que um cachorro quente pode salvar o dia. Obrigada, Dona Sivirina.

Que é possível ir e vir, e se fazer presente verdadeiramente. Obrigada, Bento.

Que se disponibilizar em determinados momentos pode ser crucial. Obrigada, Maísa.

Que conversar pouco e mesmo assim ser íntimo é qualidade de poucos. Obrigada, Sayô.

Que num olhar e num sorriso podem conter abraço. Obrigada, Bia.

Que uma risada e humor sarcástico fazem a gente se soltar muito. Obrigada, Viktor.

Que sabedoria e inteligência são encantos conquistados à duras penas. Obrigada, Ju.

Que timidez e recato não significam falta de abertura. Obrigada, Ana Paula.

Que podemos confiar à alguém, por intuição, o assumir de um lugar que não podemos mais. Obrigada, Ruana.

Que autenticidade, alegria e vida podem ser representados em uma só pessoa. Obrigada, Renata.

Que futebol, atenção e amizade une muita gente. Obrigada, Larissa.

Que é possível ver todos os filmes que existem e mesmo assim ter uma vida. Obrigada, Silvia.

Que apoio e dicas importantes fazem toda diferença. Obrigada, Zara.

Que um grupo pode fazer parte da nossa vida e nos sustentar em momentos que a gente quase esquece que é possível. Obrigada à todos!

V Curso de Especialização em Psicologia Clínica Fenomenológica
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Setembro/2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Família, Alma gêmea e Extraterrestres

A última vez que encontrei grande parte da minha família foi no réveillon. Não em virtude do mesmo, mas por ocasião do velório da minha avó. Minha família não é daquelas que se reúnem com frequência, não sabemos muito um da vida dos outros, mas as notícias correm e o momento para comentários e justificativas, com direito a julgamento e defesa, acabam por ocorrer nesses momentos. 
Bom, em certo momento, estava eu conversando com meu pai, que, por sinal, é uma excelente companhia em velórios. Sempre me junto com ele para comentarmos as gafes de cada um que passa, e é divertido. É um instante só nosso, ajuda a lidar com a tristeza e a gente se entende. Talvez só nós dois, já que quem nos vê rindo, certamente acha esquisito. É contra a etiqueta dos velórios. Mas nós nunca seguimos muito os rituais de cerimônias mesmo.
Nesse último veio a grande parte da família mais afetuosa, aquela que pergunta dos namorados à quem está solteiro; do noivado à quem está namorando; do casamento à quem está noivo; dos filhos à quem está casado. E o ciclo se repete com os filhos destes. Para eles, há sempre uma próxima etapa necessária a ser cumprida, eles fazem check-list de todo mundo pra atualizar suas visões.
Continuando, estava com meu pai quando chegou uma tia, dessas afetuosas, e eu já sabia o que estava por vir, afinal, minha irmã mais velha já era formada, casada e acabara de ter um filho. Coitada de mim. Eis que quase anunciada, chega a pergunta: e você? Quando casa e terá filhos? Larguei um sorriso e respondi na lata: Eu? Mas eu nem sei dirigir ainda! Meu pai largou outra risada, o que fez a minha tia soltar um sorrisinho amarelo e seguir caminho por entre os outros familiares, continuando a pesquisa.
Ele entendeu, era o que bastava. E continuamos a sós no nosso canto. Ora, disse ele, nem tirou carteira de motorista... Quanto mais todo o resto! Pois é, disse eu, não cumpri ainda as etapas pregressas.
Lembrar dessa história me levou à uma percepção profunda. Tá, nem tão profunda assim, mas importante. Eu tenho vivido tanta coisa na minha vida, as etapas que se sucedem a cada escolha têm me preenchido de uma maneira tão verdadeira, que acabou por derrubar de vez o sonho que eu tinha quando era adolescente de um dia encontrar a alma gêmea, casar, ter filhos, etc.
Talvez seja isso que as pessoas tanto querem dizer sobre a gente precisar aprender a viver só. Eu sempre fui uma pessoa solteira, mas não era uma pessoa livre. Eu estava sempre no tempo de encontrar alguém.
Reflexões e inúmeras sessões de terapia foram me conduzindo à outro encontro, o próprio. E chegar nesse momento é uma experiência tão gostosa, que só tem me feito querer estar o tempo todo comigo, focada nas minhas prioridades, cuidando-me e me respeitando, como eu acredito nunca antes ter feito.
O ponto é que isso tem deixado o meu mundo mais afinado e divertido, sem grandes interferências. Talvez eu só precise ficar atenta porque acostuma, é confortável demais viver no próprio mundo, e pode ser que outros corpos que se aproximem acabem por aparentar ameaça.
Deve ser por isso que eu morro de medo de extraterrestres, mais do que de aranhas e de fantasmas. A ideia de alguém de outro mundo chegar, impor certas coisas e misturar tudo por aqui pode bagunçar demais o que demorou tanto tempo e dedicação para ser construído.


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